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A moda da reciclagem na alta-costura

11/07/2011

Gustavo Lins leva a arte da reciclagem para a alta-costura

Ana María Echeverría, De Paris

Vestidos sensuais construídos com retalhos de tecido e reorganizados em mosaicos: o único latino-americano membro da seleta Câmara de Alta-Costura parisiense, o brasileiro Gustavo Lins, desfilou na última terça-feira uma coleção que elevou a reciclagem ao padrão de arte.

“É uma coleção arquitetural, como outras que fiz, mas nesta utilizei retalhos de lã e cashmere que seriam desperdiçados em meu ateliê de Paris”, disse o estilista. Lins estudou arquitetura no Brasil e em Barcelona, Espanha, antes de se consagrar na moda, e por isso essa arte está muito presente em suas coleções.
“Esse é o princípio da coleção: a reciclagem”, disse o estilista, que desfila há quatro anos, a convite da federação do ramo, no seleto e elitista grupo da alta-costura, que segue padrões rígidos como a obrigatoriedade de que as peças sejam costuradas à mão, únicas e sob medida.

Esta coleção, a 17ª apresentada por Gustavo Lins nas passarelas de Paris, onde também desfilou coleções prêt-à-porter, foi elegante e chique, mas extremamente fácil de usar. Lins criou para a temporada outono-inverno 2011-2012 vestidos em forma de túnica –leves para o dia, voluptuosos para a noite, com decotes atrevidos nas costas e recortes que valorizam o corpo das modelos. Um casaco feito com retalhos de vison e couro e um tailleur com saia e jaqueta em crepe japonês completavam os looks do desfile. Nos pés, escarpins pretos, sérios e elegantes.

Os vestidos, feitos com tecidos suaves, eram leves “como para serem colocados rapidamente ao sair da piscina”, disse o estilista. “Queria criar vestidos fáceis de usar, que envolvessem o corpo como uma toalha”, disse Lins, acrescentando que os looks foram feitos com grandes quadrados de tecido. “Não há círculos em minha coleção, só quadrados e cortes diagonais”.
A paleta de cores era característica de Lins: branco, preto, cinza e azul. Mas o estilista inovou dessa vez, com cores que evocavam seu Brasil natal, como amarelo, verde-limão, lima e azul-turquesa.
Apesar do calor no pequeno salão ao lado dos jardins do Palais Royal, onde Lins apresentou sua coleção, o público deixou de se abanar para aplaudir com entusiasmo o desfile.

“Vi todos os desfile de Gustavo e este é o melhor”, disse um especialista em moda. O toque diferente nesta coleção foi o uso de camisas, jaquetas, vestidos e casacos cortados diretamente no tecido, sem moldes, explicou Lins, cujas criações se caracterizam por uma modelagem apurada.

O brasileiro aprendeu a técnica da moulage, em que o tecido é cortado e alinhavado no próprio corpo da modelo, trabalhando como aprendiz em grandes maisons parisienses, como as francesas Louis Vuitton e Jean Paul Gaultier, a japonesa Kenzo, e principalmente com o estilista britânico John Galliano, talentoso ex-diretor artístico da maison Dior.
Este é o quarto ano consecutivo que a Câmara de Alta-Costura parisiense, que organiza os desfiles e estabelece os estritos critérios para o título de “maison”, convida Lins para desfilar. Isso quer dizer que neste momento Lins poderia se transformar em membro titular desse seleto grupo, do qual fazem parte grandes nomes da moda mundial, como Dior, Chanel, Jean Paul Gaultier, Givenchy, os italianos Giorgio Armani e Valentino e os libaneses Elie Saab e Rabih Kayrouz.

Reportagem retirada do caderno Feminino do Jornal Estado de Minas 10/07/2011

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